A revista Time está exibindo conteúdo diferente para visitantes humanos e robôs. Os humanos leem as matérias, enquanto os bots recebem um FAQ patrocinado por alguma marca, escrito em formato markdown.
Esta é a primeira iniciativa do tipo, desenvolvida em parceria com a empresa de tecnologia Mobian, que oferece uma solução chamada de “publicidade agêntica”.
A proposta é monetizar o tráfego de IA, vendendo espaço publicitário para marcas que querem influenciar as LLMs. Segundo Mark Howard, COO da Time, o tráfego de bots já supera o de humanos – mas ainda é incerto se o plano será efetivo.
Páginas patrocinadas em markdown na Time
O processo é relativamente simples: versões diferentes do conteúdo são exibidas, dependendo de quem acessa a página. A Time pode escolher qual visitante recebe o quê.
Bots de IA recebem uma versão da página em markdown, que é um formato simplificado de marcação textual, que supostamente pode ser lido com mais facilidade pelas máquinas.
Os demais visitantes, como os humanos e o Googlebot, recebem a versão de sempre do conteúdo, com HTML, CSS e JS.
O conteúdo para os robôs é patrocinado. Pode ser literalmente uma página inteira com texto criado por uma marca, ou o texto da página original, com anúncios inseridos no meio dele.
A implementação técnica dos anúncios
Para entender como esse sistema funciona, é necessário analisar três aspectos técnicos principais:
- A conversão de HTML para markdown;
- A redação dos anúncios;
- A identificação dos bots (via user-agents).
Conversão de HTML para markdown
O markdown (MD) é um formato simplificado de marcação de textos. Ele dá estrutura a documentos de forma mais econômica, sem usar as tags extensas que existem no HTML. Logo, é mais simples e barato para um agente de IA consumir informação nesse formato.
Em julho de 2026, a revista Time começou a converter o seu site para markdown. Cada página tem duas versões: a tradicional, que já estamos acostumados, e a simplificada, escrita em MD.
Algumas empresas iniciaram esse movimento pensando no GEO. Mas, segundo o Google, o markdown é completamente dispensável pois:
- Rastreadores modernos conseguem processar muito bem o HTML (até nas páginas malfeitas);
- Há perda de contexto útil sobre as páginas quando as tags HTML são retiradas;
- A gestão do site fica mais complexa, pois o número de páginas dobra e pode haver problemas de duplicação e cloaking (veja mais sobre esse último).
A redação dos anúncios
Em entrevista ao portal americano Digiday, Jonah Goodhart, CEO da Mobian, explicou que os anúncios para agentes de IA são criados igual a um anúncio normal.
Depois que uma marca paga para aparecer nesse tipo de publicidade, ocorre o seguinte processo:
- A marca cria um briefing com tudo o que quer falar;
- Um agente cria o texto do anúncio/FAQ da marca;
- Esse texto é transformado em PDF;
- A marca aprova o anúncio;
- O conteúdo entra no ar;
- A Mobian faz o prompt tracking com as perguntas do FAQ, para verificar se a resposta condiz com o texto do anúncio.
A identificação dos agentes (e o risco de cloaking)
Para decidir qual conteúdo exibir (página completa ou markdown), um snippet da Mobian analisa a requisição. Se o user-agent for reconhecidamente um rastreador de IA, a página é convertida para markdown na hora e exibida junto do anúncio pré-aprovado.
Nesse modelo, publishers escolhem quais robôs veem os anúncios e qual publicidade é exibida a eles.
Porém, essa prática condiz com o cloaking, um dos principais tipos de spam proibidos pelo Google. A definição da página de políticas de spam do buscador é a seguinte:
“Cloaking significa apresentar diferentes conteúdos para os usuários e os mecanismos de pesquisa com a intenção de manipular as classificações de pesquisa e enganar os usuários.
Exemplo: Mostrar uma página sobre destinos de viagem para os mecanismos de pesquisa e exibir uma página sobre medicamentos com desconto para os usuários”.
Se esses anúncios estivessem sendo exibidos para o Googlebot, muito provavelmente a Time seria punida.
Anúncios para influenciar o GEO
As marcas estão pagando por esses anúncios pela possibilidade de influenciar as LLMs. Hoje, o recurso está sendo publicizado pela Time e pela Mobian como uma “ferramenta de GEO” para melhorar a visibilidade de marcas de forma mensurável.
O CEO da Mobian enxerga a questão da seguinte maneira:
“Talvez seja mais importante influenciar o agente do que o humano, porque com um humano, você influencia uma pessoa. Quando você influencia o ChatGPT, está influenciando o ChatGPT por inteiro. Se ele muda o que diz sobre uma marca, é algo massivo e maior do que uma única campanha poderia fazer. A ideia aqui é que as LLMs e IAs querem informação confiável sobre as marcas. Estamos entregando essas informações a elas em um formato simples e direto”.
Muito lindo na teoria, mas na prática, essa abordagem é incerta, para dizer o mínimo. Várias questões permanecem em aberto:
- Se as LLMs irão tratar anúncios de forma diferente do conteúdo tradicional;
- Se o conteúdo rastreado será de fato responsável por influenciar a visibilidade da marca;
- Se as big techs de IA deixarão o modelo funcionar, ou se tentarão proibi-lo via políticas de spam, como o Google já faz com cloaking.
Esse movimento é inicial e, por enquanto, apenas a Time está o adotando. Ainda assim, é interessante e acompanharemos o desenrolar aqui na SEO Happy Hour.
Também me diverte muito a ideia da IA perdendo tempo vendo propaganda igual a gente!
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