Os vícios de escrita da IA que prejudicam a sua marca

Se você abrir o Linkedin agora, é provável que encontre algum post falando sobre as marcas de texto que denunciam que o conteúdo foi gerado por IA. 

E, realmente, muitos artigos feitos com LLMs, principalmente aqueles em que não há revisão humana, acabam tendo uma linguagem bem típica: explicações óbvias demais, texto mecânico, tom neutro, sem experiências reais e com os tais vícios de escrita, como o travessão.

Mas a verdade é que nem todo sinal de escrita de IA prejudica o engajamento do conteúdo. O problema é quando o uso dos geradores de texto passam a dominar a estrutura e a voz da marca

Neste texto, vou mostrar quais os vícios mais comuns em textos gerados por IA. Além disso, trouxe dois estudos sobre o tema, um falando sobre o impacto de “tiques” de IA no engajamento, e outro sobre a forma da escrita da inteligência artificial. 

Os principais vícios de escrita da IA

O fato de um texto contar com alguma das construções a seguir não significa que ele foi totalmente (ou em partes) feito por IA. Mas quando aparece em excesso, pode deixar essa impressão: 

  • Não só… mas também. Ex.: Essa estratégia não só aumenta o tráfego, mas também melhora as taxas de conversão; 
  • Iniciar seções de texto com “conclusão”. Ex.: Conclusão: Por que essa estratégia de marketing funciona;
  • Travessões em excesso. Ex.: Marketing de conteúdo não é apenas sobre ranquear no Google — é sobre construir confiança com o público;
  • Repetição de conectores, como “além disso” e “portanto”. Ex.: Além disso, é importante considerar outro ponto. Por outro lado, também vale observar um detalhe; 
  • Explicações óbvias demais. Ex.: Isso é importante porque ajuda a melhorar os resultados; 
  • Estrutura excessivamente simétrica. Ex.: Essa estratégia melhora a performance. Além disso, fortalece a marca. Por fim, aumenta a confiança do público;
  • Títulos em Maiúsculas. Ex.: Como Otimizar Sua Estratégia De Conteúdo;
  • Listas com exatamente 3 itens. Ex.:
    • SEO melhora o tráfego
    • Fortalece a reputação da marca
    • Aumenta cliques
  • Negrito excessivo. Ex.: Essa é uma estratégia crítica e essencial para o seu negócio;
  • Uso repetitivo de adjetivos genéricos. Ex.: Essa é uma abordagem crítica, um problema estrutural que silenciosamente afeta seus resultados;
  • Expressões populares, como “o pulo do gato”. Ex.: O pulo do gato é entender que o conteúdo deve ser único;
  • Listas em excesso. Ex.: Usar 5, 6 ou mais listas em um mesmo artigo, pulverizando o texto;
  • Mania de grandeza com expressões vagas. Ex.: No ecossistema digital em constante transformação, sua jornada no universo do marketing digital exige uma visão holística.

Muita gente tenta remover esses tiques do texto para ‘disfarçar’ a IA. Mas a questão não é usar uma outra construção dessas, e sim o excesso repetitivo que deixa o texto raso, monótono e mecânico.

O mais importante é ir além desses tiques e identificar o problema de verdade: um texto totalmente feito por IA pode gerar a perda do tom de voz da marca. 

Quando o conteúdo fica genérico e sem identidade, ele enfraquece a relação com o público-alvo e perde relevância em um mercado cada vez mais competitivo. 

Os padrões de escrita de IA que prejudicam o engajamento

Adam Gnuse, Angel Niñofranco e Danny Goodwin conduziram um estudo a fim de identificar quais padrões de escrita estão associados à rejeição dos leitores

A pesquisa mostrou que a maioria dos vícios de linguagem típicos da IA não têm tanta correlação no engajamento. Mas, alguns merecem destaque porque tiveram algum impacto: 

Um gráfico de barras horizontais intitulado "Correlation of Engagement Rate vs. Tic Phrase (per 1k words)". O eixo vertical lista 14 vícios de linguagem de IA, enquanto o eixo horizontal mede a correlação (r) com a taxa de engajamento, variando de -0,20 a 0,20 (tempo na página). As barras mostram que "conclusion_starter" tem a maior correlação negativa (cerca de -0,12), enquanto "em_dash" (uso de travessão) apresenta a maior correlação positiva (aproximadamente 0,15). Outros termos como "but_also" e "not_only" aparecem com impacto negativo, enquanto "important_to_note" e "sentence_starts_that" mostram leve impacto positivo.
  • Títulos ou seções começando com “conclusão”;
  • Fórmulas muito repetidas como “não só… mas também”;
  • Estruturas muito padronizadas e previsíveis.

O estudo foi realizado a partir da análise de mais de 1000 URLs destinadas a marketing de conteúdo, distribuídas em 10 domínios de diferentes setores (como tecnologia, e-commerce, saúde e educação).

A metodologia foi a seguinte: 

  • Mapeamento dos principais “tiques” de IA: os autores reuniram uma lista de padrões com base no que eles mesmo já haviam identificado em textos que produziram com apoio de LLMs, e também consultando críticas recorrentes online; 
  • Padronização de dados: eles calcularam a ocorrência desses padrões a cada 1000 palavras (para evitar que textos mais longos parecessem piores); 
  • Exclusão de páginas com menos de 500 palavras: a ideia era garantir volume de texto suficiente para a análise; 
  • Uso da taxa de engajamento do GA4 como principal métrica: foram consideradas como sessões engajadas aquelas com pelo menos 10 segundos de permanência na página, tempo suficiente para o leitor escanear a introdução e decidir se continua ou sai; 
  • Análise individual dos padrões de IA: Cada “tique” foi analisado individualmente para verificar sua correlação estatística com o engajamento.

O objetivo do estudo foi separar a percepção estética (quando você olha um texto e vê algo que, normalmente, estaria em um texto gerado por IA), do impacto real que essas marcas têm na performance do conteúdo. 

Importante: correlação não significa causa! O fato de estarem associados não significa que o uso desses padrões é a única causa de um baixo engajamento.

Pesquisa investiga os padrões que a escrita de IA segue

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Maryland, em parceria com o Google DeepMind, analisou as diferenças estruturais entre histórias escritas por humanos e as geradas por modelos de inteligência artificial, mapeando o que o autor chama de “slop” (lixo) gerado por IA.

Para isso, foram criados 10.272 prompts de escrita, e cada um foi enviado para um autor humano e 5 modelos de IA (Claude, ChatGPT, Gemini, DeepSeak e Kimi), gerando 61.608 histórias.

Cada história tinha cerca de 5 mil palavras, e foram analisadas estruturalmente com foco em: progressão do enredo, posicionamento de tensão e conflito, etc. 

Os pesquisadores conseguiram identificar histórias humanas de histórias geradas por IA com 93% de precisão. As cinco diferenças estruturais mais claras foram:

  • IA explica demais as coisas e não deixa o leitor inferir;
  • Escrita humana é menos linear, com mais saltos temporais e flashbacks;
  • IA depende de metáforas corporais para emoção (81% das histórias IA usam isso, contra 38% em textos humanos);
  • Humanos referenciam textos, marcas e lugares específicos  aproximadamente 2 vezes mais que IA;
  • A narrativa da IA é menos diversa, com menos subtramas, cenas e diálogos.

Basicamente, a pesquisa evidencia que o slop tem uma “forma” identificável e que se repete – o que explica por que a escrita de IA parece padronizada e previsível.

Usar IA para conteúdo pode trazer mais problemas do que queda de engajamento

O que a gente pode concluir com esses estudos é que o problema de um texto não é usar travessões ou padrões de texto que normalmente são atribuídos à IA. O problema está no uso repetitivo e até mecânico de certas estruturas. 

Revisar o conteúdo gerado por IA é bem importante, especialmente se você usa a ferramenta para escrever tudo. 

Gerar conteúdo em massa usando LLMs também não é uma boa ideia. Apesar das histórias de sucesso de tráfego, ele não costuma durar por muito tempo e rapidamente os sites que usam essa estratégia vão perdendo relevância. 

Usar IA deliberadamente na construção de conteúdo vai impedir seu site de chegar longe – você não vai ter conteúdo útil e único o suficiente para se destacar. A possível queda no engajamento vai ser apenas um dos KPIs que vão despencar. 

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  • Karine Sales

    Jornalista e criadora de conteúdo digital, atua há mais de 8 anos desenvolvendo estratégias e textos otimizados para blogs, sites e redes sociais.

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